Experimento realizado em uma rede instalada em ambiente urbano mostra que fótons emaranhados podem percorrer cabos convencionais de telecomunicações, aproximando as redes quânticas da infraestrutura utilizada atualmente pela internet.
Um experimento com 62 quilômetros de fibra óptica comercial trouxe novos sinais de que futuras redes de comunicação quântica poderão aproveitar parte da infraestrutura de telecomunicações já instalada nas cidades. Pesquisadores ligados ao Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST) e à Universidade de Maryland conseguiram distribuir fótons emaranhados através de cabos convencionais instalados ao ar livre, enfrentando condições reais como mudanças de temperatura, vento e vibrações. A demonstração foi destacada nesta quinta-feira, 20 de agosto de 2026, como um avanço para redes quânticas metropolitanas. (Brasil 247)
O ponto importante é que o teste não ocorreu apenas em condições controladas de laboratório. Segundo os dados divulgados, o sistema permaneceu operacional durante 92,8% de um período de 24 horas e chegou a registrar aproximadamente 1.500 pares de fótons emaranhados por segundo. A experiência buscou demonstrar que fenômenos quânticos extremamente sensíveis podem ser mantidos mesmo quando a fibra está exposta às interferências normalmente encontradas em uma rede urbana. (Brasil 247)
Como funciona a chamada internet quântica?
A internet quântica não deve ser entendida simplesmente como uma versão mais rápida da internet convencional. O objetivo é construir redes capazes de transportar e distribuir informação quântica, permitindo conectar dispositivos, sensores e computadores quânticos localizados a grandes distâncias.
Um dos elementos fundamentais dessas redes é o emaranhamento quântico, fenômeno no qual duas partículas passam a compartilhar propriedades correlacionadas. Preservar esse estado durante a transmissão é particularmente difícil porque perturbações ambientais e perdas no caminho podem degradar as propriedades quânticas dos fótons.
É justamente nesse ponto que o novo experimento ganha importância. Os pesquisadores conseguiram manter a distribuição do emaranhamento mesmo utilizando uma infraestrutura de fibra sujeita às condições de uma rede real, em vez de depender exclusivamente de instalações especialmente construídas para experimentos quânticos. (Brasil 247)
Fibra óptica comum pode reduzir barreiras
Uma das grandes questões para a criação de redes quânticas é o custo de implantação. Construir uma infraestrutura completamente separada da atual rede de telecomunicações seria complexo e caro. A possibilidade de utilizar fibras ópticas comerciais já existentes pode tornar a implantação de futuras redes metropolitanas mais viável.
No teste divulgado, os cabos estavam sujeitos a mudanças ambientais capazes de alterar a polarização da luz durante sua passagem pela fibra. Para enfrentar essas variações, o sistema utilizou mecanismos de compensação ativa, permitindo corrigir alterações e preservar a comunicação quântica por períodos prolongados. (Brasil 247)
Isso não significa, porém, que a internet utilizada atualmente esteja prestes a ser substituída. O avanço demonstra principalmente que componentes de uma futura rede quântica podem funcionar sobre infraestrutura de telecomunicações existente, reduzindo uma das barreiras práticas para levar essa tecnologia além dos laboratórios.
Outros experimentos também avançam em 2026
O desenvolvimento das redes quânticas está ocorrendo em várias frentes. Um trabalho publicado recentemente na Physical Review Letters, por exemplo, demonstrou emaranhamento entre memórias quânticas separadas por 420 quilômetros de fibra, resultado importante para comunicações quânticas de longa distância e para o desenvolvimento de repetidores quânticos. (APS Journals)
Outra pesquisa divulgada em agosto demonstrou uma memória quântica multimodo capaz de armazenar milhares de modos temporais. Em uma implantação de campo na rede metropolitana de Genebra, os pesquisadores distribuíram emaranhamento por 5,66 quilômetros de fibra urbana enquanto armazenavam mais de 8 mil modos. O trabalho mostra como diferentes componentes necessários para redes quânticas começam a ser testados fora de configurações puramente experimentais. (arXiv)
Por que esse avanço importa?
Uma futura internet quântica poderá permitir aplicações diferentes das oferecidas pela internet tradicional. Entre as possibilidades estudadas estão a interligação de computadores quânticos, redes distribuídas de sensores e novos sistemas de comunicação e segurança baseados em propriedades da física quântica.
Ainda existem obstáculos consideráveis. Estados quânticos são frágeis, fótons podem ser perdidos durante a transmissão e ampliar redes para centenas ou milhares de quilômetros exige tecnologias adicionais, incluindo memórias e repetidores quânticos. Por isso, os experimentos atuais devem ser vistos como etapas de construção da infraestrutura necessária, e não como o lançamento imediato de uma nova internet.
A demonstração em 62 quilômetros de fibra óptica comercial é relevante justamente por aproximar a pesquisa das condições encontradas nas redes de telecomunicações. Se tecnologias desse tipo continuarem avançando, parte da infraestrutura física utilizada atualmente para transportar dados convencionais poderá também servir de base para conectar dispositivos quânticos no futuro. (Brasil 247)
Fontes: NIST/Universidade de Maryland, Brasil 247, Physical Review Letters e pesquisa científica divulgada em agosto de 2026. (Brasil 247)