Índice Brasileiro de Conectividade cresce e programas como Escolas Conectadas avançam, enquanto pesquisas apontam desigualdade persistente no acesso à rede
A conectividade digital no Brasil vive um momento de contrastes. De um lado, o governo federal acelera investimentos em infraestrutura e programas de inclusão, com resultados mensuráveis em indicadores oficiais. De outro, levantamentos recentes mostram que ter acesso à internet não significa necessariamente ter uma conexão de qualidade, um problema que afeta diretamente a forma como milhões de brasileiros estudam, trabalham e acessam serviços públicos. Segundo dados divulgados pelo Ministério das Comunicações em maio de 2026, o Índice Brasileiro de Conectividade avançou de forma consistente no último ano, mas especialistas e entidades como o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) alertam que o desafio atual vai além de simplesmente ter sinal disponível. A questão central passa a ser garantir o que tem sido chamado de conectividade significativa, ou seja, uma conexão estável, acessível e útil para o uso real do dia a dia.
O avanço dos indicadores oficiais de conectividade
Os números mais recentes mostram uma trajetória de crescimento na infraestrutura de telecomunicações do país. Dados do Índice Brasileiro de Conectividade, divulgados pela Anatel em abril de 2026, mostram que a média nacional passou de 52,4 pontos em 2024 para 55,35 pontos em 2025, refletindo a expansão da infraestrutura de telecomunicações em diferentes regiões do país. Esse indicador é usado pelo governo como uma das principais referências para medir o progresso da conectividade nacional ao longo do tempo. GOV.BR
Parte desse avanço está ligada a programas voltados especificamente para a educação. A Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, com investimento total de R$ 8,8 bilhões, tem o objetivo de levar internet a mais de 138 mil escolas públicas urbanas e rurais de educação básica até o final de 2026, e já conectou mais de 73 mil unidades. Já em uma atualização mais recente apresentada à Câmara dos Deputados, o programa atingiu a marca de 99 mil escolas com conectividade, cerca de 72% da meta de 138 mil unidades básicas de ensino. O financiamento dessas conexões vem em parte do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), que destinou recursos bilionários para operações de crédito no setor nos últimos anos. Agência GovCâmara dos Deputados
Outra frente de atuação do governo é a chamada Carreta Digital, um projeto itinerante de capacitação. O laboratório móvel de tecnologia formou mais de 11 mil pessoas em diferentes regiões do Brasil em 2025, com meta de ultrapassar 20 mil capacitações em todo o país neste ano, atendendo principalmente jovens em situação de vulnerabilidade ou com pouco acesso a recursos educacionais tecnológicos. Esse tipo de iniciativa busca complementar a expansão da infraestrutura física com formação para o uso efetivo da tecnologia. GOV.BR
O problema que os números gerais não mostram
Apesar do avanço nos indicadores de cobertura, especialistas chamam atenção para um aspecto que costuma passar despercebido nas estatísticas oficiais: a qualidade real da conexão disponível para a população. Uma pesquisa da TIC Domicílios, divulgada pelo jornal Extra, do Grupo Globo, revelou que apenas 22% dos brasileiros têm acesso a uma internet de qualidade, um número que contrasta fortemente com os índices de cobertura amplamente divulgados pelo governo e pelas operadoras. MOVPLAN
Essa diferença ocorre porque o conceito de inclusão digital vai muito além de simplesmente ter um sinal disponível na região. O problema envolve infraestrutura, custo, limitação de acesso a equipamentos e falhas do sistema educacional, e a qualidade da conexão, a frequência de acesso e o tipo de dispositivo disponível influenciam diretamente a forma como as pessoas estudam, trabalham e acessam serviços. Em outras palavras, dois domicílios podem constar como “conectados” nas estatísticas oficiais, mas viverem realidades completamente diferentes na prática, um com banda larga estável e outro dependendo de um plano de dados limitado compartilhado entre várias pessoas da família. MOVPLAN
Foi justamente para tratar dessa lacuna que o Comitê Gestor da Internet no Brasil reuniu especialistas em um seminário recente. O evento, organizado pela Câmara de Universalização e Inclusão Digital do CGI.br, discutiu o tema da conectividade significativa e contou com o lançamento de um estudo inédito do Cetic.br que analisou lacunas no acesso, no uso e na apropriação da internet no país. A proposta do encontro foi justamente ampliar a forma como o Brasil mede a inclusão digital, indo além da simples contagem de domicílios conectados. CGI.br
Os próximos passos da política de conectividade nacional
Olhando para frente, o Ministério das Comunicações sinaliza que pretende tratar a infraestrutura digital de forma mais integrada, conectando redes de internet, data centers e cabos submarinos em uma única estratégia nacional. O secretário das Telecomunicações da pasta afirmou que o desafio brasileiro atual não é apenas expandir redes, mas construir uma arquitetura digital nacional mais resiliente, distribuída, integrada e preparada para a próxima etapa da economia digital, citando inclusive a necessidade de infraestrutura robusta para sustentar o crescimento da inteligência artificial no país. GOV.BR
Esse movimento reconhece um problema estrutural identificado pelo próprio governo. O Brasil ainda tem uma concentração excessiva da infraestrutura digital em poucos estados e hubs, o que ajuda a explicar por que a qualidade da conexão varia tanto entre diferentes regiões do país, mesmo quando os índices gerais de cobertura aparentam evolução positiva. Paralelamente, projetos como a conectividade em rodovias federais e a expansão para regiões remotas da Amazônia fazem parte de um esforço para reduzir essa concentração geográfica. GOV.BR
Para o usuário final, o cenário sugere que vale a pena acompanhar não apenas se a internet chegou à sua região, mas também a estabilidade e a velocidade real entregues no dia a dia. Os programas de inclusão digital seguem avançando em ritmo acelerado, mas a distância entre cobertura e qualidade continua sendo o principal obstáculo para que a conectividade no Brasil se traduza, de fato, em oportunidades concretas para quem mais precisa dela.
Fontes: Secretaria de Comunicação Social – Governo Federal | Agência Câmara de Notícias | Agência Gov | CGI.br | Ministério das Comunicações
Autor: Diego Rodríguez Velázquez