A neutralidade do mediador é, sem dúvida, uma das principais características da mediação empresarial, mas raramente é abordada com a clareza que o conceito exige. Haroldo Augusto Filho, executivo com atuação em negociação empresarial, gestão de conflitos e estruturação de soluções em ambientes corporativos complexos, considera que mal-entendidos sobre o que neutralidade significa na prática são uma das causas mais recorrentes de expectativas frustradas em processos de mediação, quando as partes descobrem que o mediador não é o que imaginavam e interpretam isso como falha do processo em vez de limitação da própria compreensão do que foi contratado.
Nas seções a seguir, as perguntas mais frequentes sobre esse tema são respondidas com a clareza que elas merecem.
O mediador pode fazer perguntas que parecem desafiar a posição de uma das partes?
Sim, e deve. Perguntas que desafiam posições fazem parte do processo de mediação quando são feitas de forma simétrica, com o mesmo rigor para ambas as partes, e quando seu objetivo é ajudar cada parte a examinar suas próprias premissas em vez de atacar a posição da outra. Uma pergunta que parece desconfortável para uma das partes não é, por isso, uma evidência de parcialidade do mediador. É frequentemente evidência de que o mediador está cumprindo sua função de criar condições para que cada parte examine o que está por trás de sua posição declarada.
Haroldo Augusto Filho observa que partes que interpretam qualquer questionamento de sua posição como violação da neutralidade do mediador estão, na prática, esperando que a mediação valide sua posição em vez de facilitar a construção de uma solução conjunta. Essa expectativa é incompatível com o que a mediação oferece, e identificá-la cedo no processo é o que permite corrigi-la antes que ela comprometa o resultado.
O que acontece quando uma das partes acredita que o mediador está sendo parcial?
A percepção de parcialidade, mesmo quando não corresponde à realidade, compromete a eficácia do processo de mediação porque reduz a disposição da parte que se sente prejudicada de participar com abertura genuína. Por isso, mediadores competentes prestam atenção ativa à percepção que cada parte tem do processo, não apenas à imparcialidade objetiva de seus movimentos.
Quando uma parte expressa percepção de parcialidade, o movimento mais produtivo é abrir espaço para que ela explique o que gerou essa percepção, sem defensividade, e verificar se houve algo no processo que possa ser ajustado para restabelecer a confiança. Como aponta Haroldo Augusto Filho, ignorar essa percepção ou tratá-la como irrelevante porque a parcialidade objetiva não existe é um erro de processo: a percepção, mesmo quando incorreta, é real para quem a tem, e seus efeitos sobre o processo são tão concretos quanto seriam se a parcialidade fosse real.

Neutralidade e imparcialidade são a mesma coisa em mediação?
São conceitos relacionados, mas distintos. Imparcialidade diz respeito ao comportamento do mediador em relação às partes: ele não favorece nenhuma delas na condução do processo. Neutralidade diz respeito à relação do mediador com o resultado: ele não tem interesse em que o processo chegue a uma conclusão específica.
Na prática, as duas coisas precisam coexistir para que o processo funcione. Um mediador que é imparcial na condução, mas que tem interesse pessoal num resultado específico, vai encontrar formas de orientar o processo em direção a esse resultado de maneiras que as partes não necessariamente vão perceber. Um mediador genuinamente neutro em relação ao resultado tem mais liberdade para usar todas as ferramentas do processo sem que sua eficácia seja comprometida por um interesse velado no desfecho.
O executivo com atuação em negociação empresarial, gestão de conflitos e estruturação de soluções em ambientes corporativos complexos, Haroldo Augusto Filho, alude que, entre os dois, a neutralidade em relação ao resultado é a condição mais fundamental, porque é ela que garante que o processo está genuinamente a serviço das partes e não de qualquer outro interesse.
O mediador pode sugerir soluções ou isso compromete sua neutralidade?
Depende de como a sugestão é feita e em que momento do processo ela ocorre. Mediadores que sugerem soluções antes de as partes terem explorado adequadamente seus próprios interesses e construído suas próprias opções estão substituindo o processo de construção conjunta por uma solução externa, o que compromete tanto a neutralidade quanto a qualidade do acordo, porque soluções que não foram construídas pelas próprias partes raramente têm o mesmo nível de adesão.
Mediadores que introduzem possibilidades de solução, como perguntas exploratórias, vocês já consideraram a possibilidade de X? Depois que as partes já exploraram seus interesses e esgotaram as opções que conseguiam enxergar sozinhas, estão usando sua posição privilegiada entre as partes de forma que amplifica o processo sem substituí-lo. Segundo Haroldo Augusto Filho, essa distinção de timing e de forma é o que separa uma intervenção que facilita de uma que dirige, e é ela que determina se a sugestão do mediador vai ser sentida como contribuição ao processo ou como imposição de uma solução que não surgiu das partes.
Como verificar se um mediador tem neutralidade genuína antes de iniciar o processo?
A forma mais direta é observar como o mediador descreve seu papel e o que ele espera das partes antes de o processo começar. Mediadores que enfatizam que o resultado está nas mãos das partes, que seu papel é facilitar e não decidir, e que o processo só produz acordos que ambas as partes escolheram voluntariamente, estão sinalizando uma compreensão do papel que é compatível com neutralidade genuína.
Mediadores que sugerem, explicitamente ou implicitamente, que já têm uma ideia de como o conflito deveria ser resolvido antes de ouvir as partes, ou que tratam certas conclusões como inevitáveis dado o que sabem sobre o caso, estão sinalizando o oposto. Haroldo Augusto Filho resume que verificar essa compreensão antes de iniciar o processo é tão importante quanto verificar a experiência técnica do mediador, porque um mediador tecnicamente competente, mas com compreensão equivocada do que é neutralidade, vai comprometer o processo de formas que nenhuma técnica de mediação consegue compensar.