Fabricante norte-americana de equipamentos para chips planeja aplicar os recursos ao longo de dez anos em pesquisa, desenvolvimento, fornecedores e formação de profissionais, enquanto a Índia tenta ampliar sua participação na cadeia global de semicondutores.
A Applied Materials anunciou nesta quinta-feira, 17 de setembro de 2026, um plano para investir US$ 5 bilhões na Índia durante a próxima década. A iniciativa foi apresentada durante a SEMICON India 2026, em Nova Délhi, e pretende ampliar a presença da fabricante norte-americana em diferentes etapas do ecossistema de semicondutores do país.
Os recursos serão direcionados principalmente para pesquisa e desenvolvimento, expansão da cadeia de fornecedores e crescimento da força de trabalho. A Applied Materials ocupa uma posição importante no setor porque fornece máquinas, materiais e tecnologias utilizadas pelas fabricantes durante a produção de semicondutores — portanto, sua expansão não representa simplesmente a construção de uma nova fábrica de chips.
O anúncio ocorre em um momento de forte crescimento da demanda por capacidade computacional associada à inteligência artificial e de reorganização geográfica da cadeia de semicondutores. Tensões comerciais e restrições envolvendo tecnologias avançadas também vêm levando empresas e governos a buscar alternativas aos centros tradicionais de produção na Ásia.
Para a Índia, o investimento se encaixa em uma estratégia mais ampla de desenvolver internamente uma cadeia que envolva design, equipamentos, materiais, fabricação, encapsulamento, pesquisa e formação de profissionais. O governo indiano afirma que o programa Semicon 2.0, aprovado em julho de 2026, possui seis pilares destinados justamente a ampliar essas capacidades.
US$ 5 bilhões serão aplicados ao longo de dez anos
O investimento anunciado pela Applied Materials será realizado gradualmente durante uma década. Segundo a Reuters, a companhia pretende fortalecer sua estrutura de pesquisa, aumentar a escala de fornecedores instalados no país e ampliar sua força de trabalho. A estratégia coloca a Índia em uma posição mais relevante dentro das operações internacionais da empresa.
A companhia também pretende estabelecer um parque de pesquisa de aproximadamente 140 acres, segundo informações divulgadas durante o anúncio. A estrutura deverá ampliar as capacidades locais de pesquisa e desenvolvimento e apoiar a introdução de novas tecnologias relacionadas à produção de semicondutores.
Essa abordagem é importante porque a fabricação de chips depende de uma cadeia muito mais extensa do que as próprias fábricas de wafers. Equipamentos extremamente especializados são necessários para deposição de materiais, criação de estruturas microscópicas, inspeção, medição e outras etapas realizadas repetidamente durante a fabricação de um semicondutor.
A Applied Materials já mantém atividades na Índia e participa da SEMICON India 2026. Na programação oficial da companhia, Prabu Raja, presidente do Semiconductor Products Group, foi escalado para apresentar a visão da empresa sobre o futuro da indústria e o papel indiano no mercado mundial de semicondutores.
Índia tenta construir cadeia completa de semicondutores
O investimento privado chega enquanto o governo indiano amplia seus próprios programas para o setor. O Semicon 2.0, aprovado em julho de 2026, recebeu orçamento de 1,275 trilhão de rúpias e busca avançar para uma cadeia mais completa, incluindo pesquisa e desenvolvimento, design de chips, máquinas e materiais, novas fábricas, formação de profissionais e encapsulamento avançado.
A primeira fase da política indiana concentrou esforços principalmente em fábricas e operações de montagem, testes e encapsulamento. Segundo o governo, o novo programa pretende complementar essa estrutura incluindo componentes e competências que ficam antes dessas etapas, reduzindo lacunas existentes na cadeia doméstica.
Até agora, 12 projetos foram aprovados dentro do programa de incentivos indiano nos últimos cinco anos. Três instalações de encapsulamento já começaram produção comercial, incluindo uma operação da Micron Technology. A Reuters observa, entretanto, que o país ainda não iniciou a produção de chips em uma fábrica de grande escala.
Um dos projetos centrais é uma fábrica da Tata Electronics em Gujarat, estimada em aproximadamente US$ 10 bilhões. De acordo com a Reuters, o início da produção comercial do empreendimento sofreu atraso de quase dois anos. Esse cenário mostra que, apesar dos investimentos anunciados, construir uma cadeia de semicondutores competitiva exige infraestrutura, fornecedores, tecnologia e profissionais especializados durante um período prolongado.
Inteligência artificial aumenta importância estratégica dos chips
A expansão da inteligência artificial adiciona pressão à indústria. Grandes data centers utilizam aceleradores, processadores, memória e componentes de rede em volumes crescentes, aumentando simultaneamente a demanda por equipamentos necessários para fabricar esses semicondutores. Esse movimento beneficia não apenas projetistas de chips, mas toda a cadeia de produção.
O governo indiano estima que o consumo doméstico de semicondutores possa atingir US$ 110 bilhões em 2030, comparado a uma faixa de aproximadamente US$ 45 bilhões a US$ 50 bilhões em 2025. O crescimento esperado ajuda a explicar por que o país busca combinar demanda interna, incentivos públicos e investimentos internacionais para desenvolver sua indústria.
A SEMICON India 2026, realizada entre 17 e 19 de setembro em Nova Délhi, reúne empresas de diferentes partes da cadeia. Segundo dados divulgados pelo governo indiano no dia da abertura, a edição reúne mais de 600 companhias e representantes de 52 países, reforçando o esforço do país para atrair fabricantes, fornecedores e centros de pesquisa.
O investimento de US$ 5 bilhões da Applied Materials, portanto, representa uma aposta de longo prazo na expansão desse ecossistema, e não a promessa de transformar imediatamente a Índia em um dos principais fabricantes mundiais. A execução dos projetos, o desenvolvimento de fornecedores e o início efetivo da produção em grandes fábricas serão indicadores importantes para medir até onde a estratégia indiana conseguirá avançar na cadeia global de semicondutores.
Fontes: Reuters — investimento de US$ 5 bilhões da Applied Materials · Governo da Índia — estratégia para semicondutores e Semicon 2.0 · Applied Materials — SEMICON India 2026 · Governo da Índia — informações oficiais da SEMICON India 2026