Pesquisa mostra distância entre o avanço da IA no mercado de trabalho e a preparação oferecida pelas universidades brasileiras, enquanto empresas aumentam a procura por profissionais capazes de utilizar novas ferramentas.
A inteligência artificial já começa a modificar as exigências do mercado de trabalho brasileiro, mas parte significativa dos estudantes universitários ainda não considera que recebe preparação suficiente para essa transformação. Um levantamento da Pearson em parceria com a Amazon Web Services (AWS), divulgado em 3 de setembro de 2026, aponta uma diferença entre as competências procuradas pelas empresas e a formação percebida pelos graduandos.
Segundo os dados apresentados pela pesquisa, 52% dos universitários brasileiros avaliam que suas instituições os preparam bem ou razoavelmente bem para um mercado de trabalho cada vez mais influenciado pela inteligência artificial. O percentual brasileiro fica abaixo da média de 61% observada entre os seis países incluídos no levantamento.
A percepção dos estudantes chama atenção porque ferramentas baseadas em IA já passaram a fazer parte de atividades acadêmicas e profissionais. Recursos para produção e revisão de textos, análise de informações, programação, pesquisa e automação estão sendo incorporados por diferentes setores da economia, aumentando a importância do conhecimento sobre essas tecnologias.
Conteúdo sobre inteligência artificial ainda é considerado insuficiente
Um dos principais pontos levantados pelo estudo está relacionado à presença da inteligência artificial nos currículos universitários. Apenas 47% dos estudantes brasileiros consultados afirmaram estar satisfeitos com a quantidade de conteúdos relacionados à IA oferecidos durante a graduação.
O resultado foi o menor registrado entre os países analisados pelo levantamento e indica que a expansão das ferramentas de inteligência artificial pode estar acontecendo em velocidade superior à atualização de parte dos programas acadêmicos.
A discussão não envolve apenas ensinar estudantes a utilizar plataformas de IA generativa. Universidades também enfrentam o desafio de desenvolver conhecimentos sobre análise crítica dos resultados, segurança das informações, ética, privacidade e utilização responsável da tecnologia.
Empresas aumentam procura por profissionais que dominam IA
A transformação também aparece do lado dos empregadores. De acordo com a pesquisa, 44% das empresas brasileiras participantes consideram a capacidade de utilizar ferramentas de inteligência artificial uma prioridade na contratação de profissionais recém-formados.
Esse cenário pode aumentar a importância das competências digitais durante processos seletivos. O conhecimento sobre IA tende a deixar de ser uma habilidade concentrada exclusivamente em carreiras de tecnologia e passar a aparecer em áreas como administração, comunicação, engenharia, finanças, saúde e educação.
Além do domínio técnico, empresas podem buscar profissionais capazes de entender quando a inteligência artificial realmente melhora uma atividade e quando seus resultados precisam de revisão humana. A capacidade de interpretar, verificar e contextualizar informações produzidas pelos sistemas passa, portanto, a integrar essa nova formação profissional.
O que muda para universidades e estudantes?
Para as instituições de ensino superior, os resultados reforçam a pressão pela atualização dos currículos. A velocidade de desenvolvimento da inteligência artificial dificulta a criação de disciplinas baseadas somente em ferramentas específicas, já que plataformas e modelos podem mudar rapidamente.
Uma alternativa é incorporar conhecimentos relacionados à IA dentro das próprias áreas de formação. Estudantes de comunicação, por exemplo, podem aprender sobre verificação de conteúdos produzidos por sistemas generativos, enquanto cursos de engenharia podem utilizar IA em simulações, análise de dados e desenvolvimento de projetos.
Para os universitários, a tendência também aumenta a necessidade de buscar formação complementar. Cursos, projetos acadêmicos e experiências práticas com inteligência artificial podem ganhar peso na preparação para processos seletivos e para profissões que estão sendo transformadas pela automação.
Pesquisa mostra desafio para o ensino superior brasileiro
No Brasil, o levantamento ouviu 500 participantes entre 7 e 28 de janeiro de 2026. A amostra reuniu 350 estudantes de graduação, 100 representantes de liderança do ensino superior e 50 empregadores.
Os resultados mostram que a inteligência artificial deixou de ser apenas uma tendência tecnológica para se tornar uma questão relacionada à formação profissional. À medida que empresas incorporam sistemas capazes de automatizar tarefas e apoiar decisões, universidades precisam avaliar como preparar estudantes para trabalhar ao lado dessas tecnologias.
A expansão da IA não significa necessariamente substituir a formação tradicional, mas acrescentar novas competências a ela. Pensamento crítico, conhecimento especializado, capacidade de comunicação e domínio responsável das ferramentas digitais tendem a se tornar habilidades complementares.
Por que isso importa?
A distância entre aquilo que as empresas esperam dos novos profissionais e aquilo que estudantes aprendem durante a graduação pode influenciar diretamente a empregabilidade nos próximos anos. Quanto mais rapidamente a inteligência artificial for incorporada ao cotidiano das organizações, maior será a pressão para que instituições de ensino acompanhem essa transformação.
Para o Brasil, a questão também envolve competitividade. Formar profissionais capazes de desenvolver, utilizar e avaliar sistemas de inteligência artificial pode ajudar empresas nacionais a aproveitar melhor os investimentos realizados em digitalização e automação.
O levantamento indica, portanto, que o desafio não está apenas em ampliar o acesso às ferramentas de IA, mas em preparar estudantes para utilizá-las de maneira produtiva, crítica e responsável. A capacidade das universidades de adaptar seus currículos poderá ter papel importante na formação da próxima geração de profissionais brasileiros.
Fontes: